...o que a minha mãe me dava em miúda na noite anterior a qualquer evento especial para dormir melhor. ...o que de vez em quando ainda me dava jeito que a minha mãe me desse. ...um dos aromas que eu mais gosto. ...são reflexões que me assaltam.

04
Ago 14

O vento soprava forte. A sua frente abria-se o mar cinzento e revolto, trazendo consigo salpicos de agua salgada e espuma e o cheiro forte a maresia. O ceu parecia que ia cair a qualquer momento, de pesado e carregado que estava. Mesmo assim as pessoas continuavam na praia (afinal era Julho e os dias de ferias nao se podiam desperdiçar fechados na casa alugada a quinzena).

A sua frente as miudas brincavam na areia indiferentes ao tempo. O balde, a pa, uma corda para saltar, o mar a brincar-lhes nos pes fazendo-lhes cocegas. ''Nao me apanhas! Nao me apanhas!'' As rochas para trepar. Qual vento, qual tempestade!! Ar livre! Podiam chover picaretas que ninguem as fazia ir para casa.

As gaivotas voavam tao baixo que quase razavam as cabeças. Lembranças de um filme de Hitchcock cheio de passaros por todos os lados. ''Sera que nos vao comecar a picar os miolos?'' - pensou assustada. ''Tolice! Olha as miudas que as assustas e depois nao ha quem as faça dormir a noite!'' Na realidade quem nao iria dormir era ela apesar de todo o cansaço que ainda sentia depois de uma viagem tao longa. Aquele filme sempre a tinha perturbado desde que o vira a primeira vez em miuda, ja la ia uma eternidade...

Voltou a olhar para o mar. Como era diferente do que via desde ha dois anos e como ainda se lembrava e amava o cheiro, a cor e as ondas revoltas que o caracterizavam. Fechou os olhos para gravar bem todos os sentidos para o tempo do deserto. ''Se ao menos o pudesse levar comigo.'' Pegou na maquina fotografica e disparou vezes sem conta na ansia de captar toda a sua essencia. Quem disse que na Ericeira o mar e mais azul? Nos dias calmos talvez mas nao em dia de mares vivas como aquele e que eram os seus favoritos. Era capaz de estar horas a olhar para ele e sempre se maravilhava com os efeitos de luz das ondas e a dança das gaivotas ao sabor do vento. Como amava o mar e aquele em especial.

Uma onda mais forte chegou ao lugar onde tinham as toalhas e os sacos. Menos mal - so molhou uma das toalhas, mas as miudas começaram num alvoroço entre o divertimento e o susto. ''Tia, nao vamos ja para casa esta bem?'' - perguntou a mais velha. A mais nova afirmou com ar decidido :''Nao gosto de praia.'' - ''Porque?!'', perguntou incredula. ''Porque tem areia. E eu nao gosto de areia.'' Evitou uma gargalhada e respondeu '' Ok. Vamos procurar uma praia com areia suficiente para estenderes a tua toalha e ficares o resto do tempo em cima dela. Assim ficamos todas contentes.''

Depois de reunir as tralhas e adocar os pes, subiram a rampa da Praia do Sul em direcçao ao carro. Se nao fossem as garotas teria ficado ali na esplanada o resto da tarde a olhar para o mar cada vez mais revolto, cinzento e branco como a cabeleira de um velho lobo do mar. ''Fica para a proxima'', pensou. O riso e as brincadeiras das princesas chamavam mais alto e depois de por o carro a trabalhar foram a caça de uma praia com areia mas suficientemente grande para se estender uma toalha e brincar sem pisar um unico graozinho da mesma.

publicado por aguadeflordelaranjeira às 17:10
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6 comentários:
Muito lindo...não sabia que tinhas pavor a muitas gaivotas :)
elisa a 4 de Agosto de 2014 às 21:45

É fácil perceber-te nos olhos o encanto pelo mar, agora ainda maior, por viveres no meio das areias sem água nem o ar salgado nem a frescura do Atlântico... Não só da Ericeira, como recentemente na Vagueira...
Keep on writing! I like it!
Old Brotas
Vitor a 5 de Agosto de 2014 às 00:52

Obrigada Old Brotas!!

Por momentos pensei que estava a ler a primeira página de um livro. Também eu adoro contemplar o mar, as gaivotas mas só ao longe porque tenho pavor ao perto. A sensação de liberdade e tranquilidade que o mar nos trasmite é algo incomparável. Beijinhos
isabel branco a 5 de Agosto de 2014 às 14:53

Obrigada. Só escrevo o que me vai no coração.

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