...o que a minha mãe me dava em miúda na noite anterior a qualquer evento especial para dormir melhor. ...o que de vez em quando ainda me dava jeito que a minha mãe me desse. ...um dos aromas que eu mais gosto. ...são reflexões que me assaltam.

29
Jan 14

Chovia. De vez em quando um trovão. O cheiro a mar envolvia a vila. À sua frente a Basílica erguia-se ao cimo da escadaria. Caía a noite.

 

A igreja ainda estava aberta. Resolveu entrar. O aroma a incenso vinha misturado com um cheiro a mofo e a naftalina. Uma velhota estava ajoelhada perto do altar.

 

Não sabia bem o que estava ali a fazer nem se lembrava da última vez que ali entrara. Anos atrás costumava ali ir ouvir concertos de música barroca - tanto tempo já e tanta coisa passada entretanto que parecia ter sido noutra vida.

 

 

Percorreu a nave pé-ante-pé tentando desesperadamente que os seus saltos altos não fizessem qualquer barulho que perturbasse o silêncio que ali dentro reinava (tão diferente do barulho que havia na sua cabeça...). Sentou-se numa das primeiras filas onde o cheiro da cera derretida era mais intenso.

 

Cheiros. Gostava de os apreciar. Tão diferentes os deste dia. Ainda assim evocavam outros de alguns dias atrás. O cheiro a canela, a cardamomo, a madeira e a incenso, numa praia sem cheiro a mar e sem gaivotas. Fechou os olhos como que querendo manter essa recordação. Um arrepio percorreu o seu corpo enquanto um trovão ribombava nas paredes da basílica. Apenas alguns dias e já parecia uma eternidade. Encolheu-se no casaco receando que alguém descobrisse o que ia nos seus pensamentos. Era fácil - ele dissera-lhe que ela era transparente e que desde a primeira hora soube logo quem era. Desde aí tentava que o seu rosto não mostrasse nada. Sorriu pela primeira vez nesse dia. 

 

Foi então que descobriu que tinha saudades. 

 

Saudades de um sorriso e de umas mãos perfeitas e fortes.

 

Saudades de uns olhos que escondiam toda uma vida cheia de histórias e de mistérios.

 

Saudades do silêncio da casa.

 

A velha levantou-se e acendeu uma vela. Virou costas e foi embora.

 

Nas costas sentiu um vento frio e o cheiro a terra molhada invadiu o templo.

 

Alguém lhe tocou no ombro.

 

Virou-se e uns olhos verdes e brilhantes sorriram para ela. " Já parou de chover. Vamos?"

 

"Coy? " disse baixinho, não acreditando no que via.

 

Sorriu e um raio de sol atravessou o vitral iluminando a nave.

 

publicado por aguadeflordelaranjeira às 17:14
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