...o que a minha mãe me dava em miúda na noite anterior a qualquer evento especial para dormir melhor. ...o que de vez em quando ainda me dava jeito que a minha mãe me desse. ...um dos aromas que eu mais gosto. ...são reflexões que me assaltam.

30
Jan 14

Se ao menos houvesse um dia em que não sentisse saudades do mar...

 

Em dias cinzentos e chuvosos como o de hoje, estou sempre à espera de sentir o cheiro a maresia característico da minha terra, de ver as gaivotas a voar como loucas por cima da cidade e arrepiar-me com a nortada cortante e forte.

 

Mas uma pessoa chega à rua e tudo o que sente é um bafo quente e o cheiro a pó molhado. A rua alagada e nem uma gaivota para amostra. É mau.

 

E as saudades de Aveiro, da ria e da Costa Nova, acompanhadas por nevoeiro e nortada apertam até doer.

 

O que pode fazer um dia de chuva no deserto.

publicado por aguadeflordelaranjeira às 20:35
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29
Jan 14

Chovia. De vez em quando um trovão. O cheiro a mar envolvia a vila. À sua frente a Basílica erguia-se ao cimo da escadaria. Caía a noite.

 

A igreja ainda estava aberta. Resolveu entrar. O aroma a incenso vinha misturado com um cheiro a mofo e a naftalina. Uma velhota estava ajoelhada perto do altar.

 

Não sabia bem o que estava ali a fazer nem se lembrava da última vez que ali entrara. Anos atrás costumava ali ir ouvir concertos de música barroca - tanto tempo já e tanta coisa passada entretanto que parecia ter sido noutra vida.

 

 

Percorreu a nave pé-ante-pé tentando desesperadamente que os seus saltos altos não fizessem qualquer barulho que perturbasse o silêncio que ali dentro reinava (tão diferente do barulho que havia na sua cabeça...). Sentou-se numa das primeiras filas onde o cheiro da cera derretida era mais intenso.

 

Cheiros. Gostava de os apreciar. Tão diferentes os deste dia. Ainda assim evocavam outros de alguns dias atrás. O cheiro a canela, a cardamomo, a madeira e a incenso, numa praia sem cheiro a mar e sem gaivotas. Fechou os olhos como que querendo manter essa recordação. Um arrepio percorreu o seu corpo enquanto um trovão ribombava nas paredes da basílica. Apenas alguns dias e já parecia uma eternidade. Encolheu-se no casaco receando que alguém descobrisse o que ia nos seus pensamentos. Era fácil - ele dissera-lhe que ela era transparente e que desde a primeira hora soube logo quem era. Desde aí tentava que o seu rosto não mostrasse nada. Sorriu pela primeira vez nesse dia. 

 

Foi então que descobriu que tinha saudades. 

 

Saudades de um sorriso e de umas mãos perfeitas e fortes.

 

Saudades de uns olhos que escondiam toda uma vida cheia de histórias e de mistérios.

 

Saudades do silêncio da casa.

 

A velha levantou-se e acendeu uma vela. Virou costas e foi embora.

 

Nas costas sentiu um vento frio e o cheiro a terra molhada invadiu o templo.

 

Alguém lhe tocou no ombro.

 

Virou-se e uns olhos verdes e brilhantes sorriram para ela. " Já parou de chover. Vamos?"

 

"Coy? " disse baixinho, não acreditando no que via.

 

Sorriu e um raio de sol atravessou o vitral iluminando a nave.

 

publicado por aguadeflordelaranjeira às 17:14
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27
Jan 14

Ela tinha uma dor de cabeça que mal conseguia ter os olhos abertos.

Ela olhou para o espelho e tinha os olhos vermelhos.

Ela procurou ávidamente dois ben-u-rons para ver se a dor de cabeça passava.

Ela de vez em quando parava no Facebook.

Ela foi a cozinha para lavar a loiça do pequeno-almoço e descobriu que não tinha detergente em casa.

Ela pôs a louça suja dentro da pia.

Finalmente arrumou a bancada que também serve de mesa de pequeno-almoço.

A dor de cabeça piorava cada vez mais.

Ela comeu um queijo atabafado como jantar só para não ir para a cama sem nada no estômago.

Ela voltou ao Facebook.

Ela arranjou-se e lavou os dentes.

Pegou num pacote de bonbons e esqueceu-se que já tinha lavado os dentes.

Ela pegou num livro e meteu-se na cama.

Ela pôs a sua música preferida a tocar mas a dor de cabeça ainda não estava muito longe e não tolerou por muito tempo.

Não conseguiu concentrar-se no livro.

Até o acto de pensar aumentava a dôr de cabeça.

Ela voltou ao Facebook.

Fechou o livro.

Arrumou os restos das pratas dos bonbons.

Foi lavar os dentes.

Voltou para a cama.

Foi ao Facebook uma vez mais antes de se virar para o outro lado e tentar finalmente dormir.

Se isto não é ser viciada em Facebook e necessitar de ir para reab...não sei o que será.

publicado por aguadeflordelaranjeira às 18:11
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26
Jan 14

A noite está fresca e o vento sopra sobre as copas das árvores. Sigo o meu caminho de regresso a casa. Nem dou atenção a quem passa por mim e a estrada super-movimentada à minha frente parece que abranda para me deixar atravessar.

 

 

Na cabeça apenas um fado que canta desde que acordei e a lembrança de (foi sonho com certeza) alguém que conta aventuras de alto-mar, saídas à procura de mantimentos, passagens pelo Equador com Neptunos e ovos à mistura, de ondas enormes que me povoam as noites e que fazem querer desistir, seguidas de mares calmos e tranquilos como só se vê depois das grandes tempestades, homens arrastados pelo mar para não voltarem mais, mulher a bordo causando burburinho, buracos na parede e saltos para piscinas de repente vazias de água, narizes partidos e enfermeiros alcoólicos.

 

 

Uma miúda com cara de lua cheia e olhos enormes, sentada na cadeira pequenina, ouvindo essas histórias que lhe aumentam o tamanho dos faróis esverdeados e querendo ouvir mais e mais. Imaginando-se a vomitar feita louca no meio das montanhas de água que desde sempre aterrorizam os seus sonhos.

 

De repente sobressalto-me com o chamamento para a última oração do dia - Isha. Olho em volta e dou-me conta que não há mar - apenas uma cidade feia e poeirenta.

 

Na cabeça Carminho continua a cantar o mesmo fado.

 

Rodo a chave na porta.

 

Entro em casa.

 

Acabou o dia.

publicado por aguadeflordelaranjeira às 18:50
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música: http://youtu.be/KhgGRuEsUU0

24
Jan 14

O silêncio da casa é cortado a espaços pelo barulho dos moveis a conversarem entre si. A noite está povoada por brigas de gatos, um ou outro carro que se distingue passar ao longe, o vento a soprar nas folhas das tamareiras e das árvores que circundam a casa. De resto só a respiração compassada de quem já dorme.

 

Acordei depois de um sono povoado de sonhos sem nexo. A casa da infância sempre presente. Pessoas que nunca vi a darem-me palpites e conselhos que não pedi. Tigres magricelas à caça dos meus gatos. Uma sensação de que apagaram a película e nunca vou saber o final do filme.

 

Os meus pensamentos são interrompidos pelo chamamento triste para a oração da madrugada - Fajr. Apesar de não perceber o que dizem sempre sou assaltada por um sentimento de ternura quando o ouço. E veio-me à memória a primeira vez que o ouvi; as primeiras semanas neste país estranho em que só queria apanhar o primeiro avião de volta a casa; alguém do lado da civilização ocidental a dizer-me que eu ainda haveria de amar este povo; alguém que aqui se instalou há anos a dizer que acreditava que eu iria aqui permanecer muitos anos; eu no meu íntimo a pensar que tudo tinha enlouquecido e a pedir que parassem o mundo para eu sair. Não pude deixar de sorrir na escuridão do quarto. Aqui estou eu quase dois anos depois de chegar. Feliz por ficar mais tempo. Quem diria...

 

Por alguma razao repetem o chamamento. Será que ninguém acorreu à mesquita? Será que se enganou na hora? Respiro fundo e viro-me para o outro lado. Seja lá o que fôr, amanhã não é dia de trabalho e ainda há umas horas para dormir de novo. Fecho os olhos e adormeço embalada com o riso das crianças que aqui encontramos em toda a parte.

 

Smile! You´re in Saudi Arabia!

 

publicado por aguadeflordelaranjeira às 17:43
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05
Jan 14

O cheiro da terra molhada animou-me. A recordação do que quero arquivado tinha-me assaltado por momentos mas depressa o vento fresco que se segue ao aguaceiro levou-a para longe, apenas deixando uma réstea de desilusão.

Paciência. 

A vida segue.

Tem de seguir.

Chego a casa e ouço Jorge Palma.

O som do piano sossega-me os pensamentos e as fotos do mar revolto que vejo na net trazem-me uma ilusão de cheiro a sal e salpicos de espuma a cair-me na pele.

Estou em paz.

Agrada-me a ideia de finalmente ter alcançado a liberdade no meio de um lugar em que essa palavra parece ser desconhecida.

Sinto-me leve como há muito tempo não me sentia.

É tão bom reconciliar-me comigo mesma!

 

publicado por aguadeflordelaranjeira às 17:31
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sinto-me:
música: http://youtu.be/NBvsiX6mY-I

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